Por que sonhamos? O que a ciência sabe sobre os sonhos
Você já acordou depois de um sonho tão estranho que precisou de alguns segundos para lembrar onde estava?
Ou já sonhou com alguém que não via há anos, visitou um lugar que nunca existiu ou viveu uma situação completamente impossível que, durante o sonho, parecia absolutamente real?
Sonhar é uma das experiências mais comuns da vida humana, mas continua sendo um dos maiores mistérios do cérebro. Durante séculos, os sonhos foram interpretados como mensagens, previsões e sinais sobrenaturais. Hoje, a ciência consegue explicar muito mais sobre como os sonhos acontecem do que sobre por que eles existem.
A verdade é que ainda não existe uma resposta definitiva para a pergunta: por que sonhamos?
Mas os pesquisadores já sabem bastante sobre o que acontece no cérebro durante o sono, por que alguns sonhos parecem tão reais, por que os sonhos costumam ser tão estranhos e por que esquecemos a maioria deles.
Prepare-se para entrar no estranho mundo da ciência dos sonhos. 🌙
Primeiro: o que exatamente é um sonho?
Basicamente, um sonho é uma experiência mental que acontece durante o sono.
Enquanto sonhamos, podemos experimentar imagens, sons, pensamentos, emoções e sensações físicas. Podemos conversar com pessoas, fugir de perigos, visitar lugares conhecidos ou viver situações que não obedecem a nenhuma lógica.
Uma característica especialmente curiosa é que, durante o sonho, acontecimentos absurdos podem parecer completamente normais.
Você pode sonhar que está conversando com alguém que morreu, voando sobre uma cidade ou voltando para a escola anos depois de terminar os estudos. E, naquele momento, seu cérebro simplesmente aceita tudo aquilo como realidade.
Os sonhos podem ser divertidos, assustadores, confusos, emocionantes ou completamente sem sentido.
E isso acontece porque o cérebro não desliga quando dormimos. Ele continua ativo, mas passa a funcionar de maneira diferente. A ciência associa os sonhos mais vívidos principalmente ao sono REM, embora eles também possam acontecer durante o sono não REM.
Os sonhos acontecem apenas durante o sono REM?
Durante muito tempo, os sonhos foram fortemente associados ao sono REM, sigla para “movimento rápido dos olhos”, em inglês.
Essa fase recebe esse nome porque os olhos se movimentam rapidamente por trás das pálpebras. Durante o sono REM, a atividade cerebral aumenta e pode apresentar características semelhantes à atividade observada quando estamos acordados.
É nessa fase que costumam ocorrer muitos dos sonhos mais intensos, longos, vívidos e cheios de histórias.
Mas existe um detalhe importante: também podemos sonhar durante outras fases do sono.
Os sonhos que acontecem fora do sono REM podem ser diferentes. Muitas vezes, tendem a ser menos vívidos ou menos parecidos com uma história completa. Ainda assim, não existe uma divisão perfeita em que “REM significa sonho” e “não REM significa ausência total de sonhos”.
Então por que os sonhos mais intensos parecem tão reais?
Essa é uma das partes mais impressionantes.
Durante um sonho, seu cérebro é capaz de criar uma experiência inteira sem que ela esteja acontecendo no mundo real.
Você pode sentir medo porque está sendo perseguida, mesmo estando deitada tranquilamente em sua cama.
Pode sentir saudade ao encontrar alguém no sonho.
Pode acordar chorando depois de um pesadelo.
Ou pode sentir alegria durante uma situação completamente imaginária.
Durante o sonho, regiões e sistemas cerebrais envolvidos em experiências mentais continuam ativos. Ao mesmo tempo, o cérebro recebe muito menos informação sensorial do ambiente externo do que recebe quando estamos acordados.
Em outras palavras, o cérebro está criando uma espécie de experiência interna.
É por isso que você pode estar dormindo em silêncio no seu quarto enquanto, dentro do sonho, está vivendo uma aventura completa.
Por que os sonhos são tão estranhos?
Você já parou para pensar que os sonhos não obedecem às regras normais da realidade?
Em um sonho, uma pessoa pode mudar de rosto. Você pode estar na sua casa e, segundos depois, aparecer na praia. Uma criança pode se transformar em um adulto. Um lugar pode parecer familiar e, ao mesmo tempo, ser completamente diferente.
Quando estamos acordados, o cérebro recebe constantemente informações do mundo real que ajudam a organizar nossa percepção.
Durante o sono, essa ligação com o ambiente externo muda.
Além disso, durante os sonhos, memórias, emoções e experiências podem aparecer misturadas de maneiras inesperadas.
Isso pode ajudar a explicar por que você sonha com um antigo colega de escola em um lugar que parece sua casa, mas na verdade tem características do seu trabalho atual.
O cérebro parece pegar diferentes elementos e combiná-los em uma história que nem sempre faz sentido.
Ou, pelo menos, não faz sentido quando você acorda.
Os sonhos podem ter relação com as nossas memórias?
Essa é uma das principais áreas estudadas pelos pesquisadores.
Sabemos que o sono tem uma relação importante com processos de memória e aprendizagem. Durante o sono, o cérebro participa de processos relacionados à consolidação e à reorganização de informações.
Uma das hipóteses é que os sonhos estejam relacionados, pelo menos em parte, a esses processos.
Você já percebeu como elementos do seu dia podem aparecer em um sonho?
Talvez você tenha assistido a uma série, conversado com alguém e, naquela mesma noite, essas experiências tenham surgido misturadas em uma situação completamente diferente.
Isso não significa que o sonho seja uma simples reprodução do dia.
Na maioria das vezes, o conteúdo aparece transformado.
Uma pesquisa e diferentes modelos da neurociência consideram que a experiência de sonhar pode estar relacionada à reativação e ao processamento de memórias durante o sono.
Será que sonhamos para organizar nossas memórias?
Talvez. Mas a ciência ainda não consegue afirmar isso com certeza.
O sono está claramente envolvido em processos importantes de memória. No entanto, uma coisa é demonstrar que o sono ajuda o cérebro a consolidar informações. Outra é provar que o sonho em si possui uma função específica e indispensável para esse processo.
Essa diferença é muito importante.
É possível que parte da atividade mental que experimentamos como sonho seja uma consequência dos processos que estão acontecendo durante o sono.
Também é possível que sonhar tenha uma função própria.
Os cientistas ainda estão tentando descobrir onde exatamente termina a função do sono e começa uma possível função específica dos sonhos.
Os sonhos ajudam a processar emoções?
Essa é outra hipótese bastante estudada.
Os sonhos podem ser extremamente emocionais. Algumas pessoas vivem situações felizes, assustadoras, constrangedoras ou dolorosas enquanto dormem.
Pesquisadores investigam se o ato de sonhar pode participar do processamento de experiências emocionais vividas durante a vigília.
O sono REM, em particular, tem uma relação importante com a atividade de sistemas envolvidos na memória e nas emoções.
Isso não significa que um sonho assustador seja automaticamente uma tentativa do cérebro de “resolver” um trauma ou que toda pessoa que sonha com algo tenha um significado psicológico escondido.
Mas existe interesse científico em entender como os sonhos e o processamento emocional podem estar relacionados.
Algumas hipóteses sugerem que experiências emocionais podem ser reorganizadas e processadas durante o sono, enquanto o conteúdo dos sonhos pode refletir, pelo menos parcialmente, essas atividades cerebrais.
Por que esquecemos a maioria dos nossos sonhos?
Você pode ter sonhado várias vezes durante uma única noite e acordar pensando: “não sonhei nada”.
Mas é possível que você simplesmente não tenha conseguido se lembrar.
A memória de um sonho pode desaparecer muito rapidamente após o despertar.
Quem acorda no meio de um sonho costuma ter uma chance maior de se lembrar dele. Já quem continua dormindo e só acorda mais tarde pode esquecer grande parte da experiência.
Isso ajuda a explicar por que alguns sonhos parecem muito nítidos durante alguns minutos e, logo depois, desaparecem completamente.
Você pode acordar e pensar:
“Nossa, preciso lembrar desse sonho!”
E cinco minutos depois:
“Eu estava em algum lugar... com alguém... fazendo alguma coisa?” 😅
Esse rápido desaparecimento da lembrança é extremamente comum.
Todo mundo sonha?
Sim. As pessoas normalmente sonham, mesmo quando acreditam que nunca sonham.
A diferença geralmente está na capacidade de lembrar.
Algumas pessoas se recordam dos sonhos quase todos os dias. Outras passam semanas sem lembrar de nenhum.
Isso não significa necessariamente que uma pessoa esteja sonhando mais do que a outra.
As diferenças podem estar relacionadas ao momento do despertar, aos padrões de sono e à maneira como cada pessoa forma e recupera essas memórias.
Os sonhos podem ocorrer em diferentes fases do sono e, em média, as pessoas passam uma parte significativa da noite tendo experiências oníricas, embora não se lembrem da maioria delas.
Por que às vezes temos pesadelos?
Pesadelos são sonhos desagradáveis que podem provocar medo, ansiedade ou outras emoções intensas.
Eles costumam ser especialmente vívidos.
Estresse, experiências emocionais intensas, falta de sono e diferentes condições podem influenciar a ocorrência de pesadelos.
Uma pessoa também pode ter um pesadelo sem que exista um motivo óbvio.
Sonhar que está sendo perseguida, caindo, perdendo alguém ou enfrentando uma situação perigosa é bastante comum.
Mas isso não significa que o sonho esteja prevendo que alguma coisa vai acontecer.
Do ponto de vista científico, não existe evidência de que os sonhos tenham capacidade comprovada de prever o futuro.
Por que algumas pessoas conseguem controlar os sonhos?
Algumas pessoas experimentam o chamado sonho lúcido.
Isso acontece quando a pessoa percebe, durante o próprio sonho, que está sonhando.
Em alguns casos, ela pode até conseguir influenciar o que acontece.
Imagine estar em um sonho e, de repente, pensar:
“Espera aí... eu estou dormindo.”
Essa percepção pode fazer com que a pessoa tente controlar ações dentro do sonho, como voar ou mudar de lugar.
Os sonhos lúcidos também são estudados pela ciência porque representam uma experiência interessante: a pessoa está dormindo, mas possui algum nível de consciência sobre o fato de estar vivendo um sonho.
Os sonhos têm significado?
Essa pergunta depende do que você entende por “significado”.
Não existe um dicionário científico universal capaz de afirmar:
- sonhar com cobra significa exatamente uma coisa;
- sonhar com queda significa exatamente outra;
- sonhar com uma pessoa significa que ela está pensando em você.
Essas interpretações populares não possuem uma regra científica universal.
Mas isso também não significa que os sonhos sejam completamente desconectados da sua vida.
Experiências, memórias, preocupações e emoções podem aparecer nos sonhos de maneiras transformadas.
Se você passou o dia preocupada com alguma coisa, é possível que elementos dessa preocupação apareçam durante o sono.
Mas interpretar isso como uma mensagem secreta exige muito mais cautela.
A maior resposta ainda não existe
Então, afinal: por que sonhamos?
A resposta mais honesta da ciência é: ainda não sabemos exatamente.
Existem hipóteses relacionadas à memória, ao processamento de emoções, à criatividade, à preparação para situações futuras e à própria atividade cerebral durante o sono.
Mas nenhuma explicação única conseguiu encerrar o mistério.
Os cientistas sabem que o cérebro permanece ativo durante o sono. Sabem que os sonhos podem acontecer em diferentes fases, embora os mais vívidos estejam fortemente associados ao sono REM. Sabem que memórias e emoções parecem ter relações importantes com o conteúdo dos sonhos.
Mas ainda não existe uma resposta definitiva sobre por que precisamos experimentar sonhos.
Talvez seja isso que torna os sonhos tão fascinantes
Toda noite, o cérebro pode criar lugares que não existem, colocar pessoas improváveis em uma mesma situação e fazer você viver emoções completamente reais.
Você pode acordar feliz por causa de algo que nunca aconteceu.
Ou sentir saudade de uma pessoa que acabou de aparecer apenas em um sonho.
Durante algumas horas, seu cérebro constrói uma realidade inteira dentro da sua mente.
E quando você acorda, essa realidade pode desaparecer em poucos segundos.
Talvez a ciência ainda não saiba exatamente por que sonhamos. Mas sabemos que os sonhos são uma das manifestações mais curiosas de um cérebro que continua extremamente ativo mesmo quando nós estamos profundamente adormecidos.
E você: costuma lembrar dos seus sonhos ou esquece quase tudo logo depois de acordar? 🌙

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